
21/10/2014
Na década de 1970, os Yawanawá (que na língua indígena significa “povo da queixada”) eram candidatos à extinção assim como a arara azul e a onça pintada, com quem dividiam o território na floresta amazônica acreana. Espremidos entre os seringalistas — que ainda tentavam extrair lucros das árvores seringueiras depois do fim do ciclo da borracha — e missionários evangélicos americanos que, com o aval da ditadura militar, passaram décadas catequizando e aculturando indígenas na região, os cerca de 200 remanescentes da etnia sofriam com conflitos por terra, trabalho análogo à escravidão e epidemia de alcoolismo.
— Fomos proibidos de falar nossa língua, nossos rituais eram considerados diabólicos, dependíamos dos fazendeiros para comer, dependíamos dos missionários para ter remédios — afirma o cacique Biracy Yawanawá, de 50 anos, que na infância havia sido educado para ser missionário e que, 40 anos mais tarde, é reconhecido pelos integrantes da tribo como o principal responsável pela mudança no destino da aldeia. Hoje, os Yawanawá já somam cerca de mil pessoas.
— Há 20 anos, a gente tinha vergonha de ser índio. Se você viesse aqui, veria um grupo de Yawanawá tomando cachaça e dançando forró ou outro pregando com a Bíblia embaixo do braço — afirma Julia Yawanawá, prima de Biracy.
Segundo a história oral recente do povo, a sorte dos Yawanawá começou a mudar quando, em 1983, tiveram demarcado seu território — 220 mil hectares de terra às margens do Rio Gregório. No mesmo período, Biracy saiu da aldeia para estudar. Em Rio Branco, militou ao lado de Chico Mendes e Marina Silva e participou da fundação do PT. Viajou para congressos de direitos indígenas pelo Brasil e na América do Sul. Longe de suas terras, recuperou a identidade indígena e ganhou força política.
Em 1992, voltou para a tribo disposto a abreviar o enredo de alcoolismo e genocídio, frequente também entre outras etnias, como os Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. Contrariou os mais velhos, que já eram evangélicos, tomou o poder e expulsou os missionários das terras indígenas. Queimou todas as Bíblias que sobraram na aldeia.
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