
29/03/2016
O zika chegou ao Brasil pelo menos um ano antes do imaginado. A mais detalhada análise genética do vírus já realizada revela que ele entrou no país até dois anos antes da detecção dos primeiros casos, em maio de 2015, na Bahia. O estudo publicado na "Science" e assinado por mais de 50 autores, em sua maioria brasileiros, situa a entrada entre maio e dezembro de 2013, período em que ocorreu a Copa das Confederações. Os pesquisadores sequenciaram o genoma do vírus de sete pacientes no Brasil.
A pesquisa indica que o zika causou doença despercebido, por muitos meses, antes que o alerta dos sistemas de vigilância soasse. A descoberta evidencia que os métodos usados hoje falham ao não acompanhar o ritmo de propagação de vírus num mundo globalizado. E que micro-organismos em tese restritos a florestas podem rapidamente se adaptar e disseminar por cidades.
Até agora, se supunha que o zika poderia ter chegado em 2014, com a Copa do Mundo (12 de junho a 13 de julho) ou durante o campeonato de canoagem Va´a (12 a 17 de agosto), no Rio. A análise do genoma sugere que o zika já estava aqui em 2014.
— Infelizmente, perdemos a oportunidade de detectar o zika precocemente. Um dos principais motivos é que ele provoca sintomas muito parecidos com os da dengue e a própria detecção da dengue não é satisfatória. Além disso, a maioria dos casos é assintomática. Essas novas epidemias são um desafio imenso e mostram que temos muito a aprender e a melhorar na vigilância — afirma o virologista do Instituto Evandro Chagas (Ananindeua, Pará) Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, um dos autores do estudo e pioneiro em pesquisa do zika no Brasil.
Embora não descartem que ele tenha vindo com a Copa das Confederações (15 a 30 de junho), o mais provável é que desembarcou com viajantes de países de Polinésia Francesa e do Sudoeste da Ásia, cujo fluxo para o Brasil aumentou 50% nesse período. Passou de cerca de 3.775 passageiros por mês no início de 2013 para 5.750 no fim daquele ano, segundo cálculos dos cientistas.
— Vírus viajam como nunca. Essa primeira grande análise do zika demonstra isso. Eventos como a Copa das Confederações podem ser propagadores. Mas é provável que o zika veio com passageiros de áreas de epidemia ao longo de 2013 sem ser notado. A lição é que não há espaço para conforto. Temos que pensar o tempo todo fora da caixa e manter o alerta ligado 24 horas por dia — destaca o virologista Renato Pereira de Souza, diretor técnico do Núcleo de Doenças de Transmissão Vetorial do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, e também coautor do estudo.
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