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Se não salvarmos os pandas, não salvaremos mais nada

31/03/2016

Bill McShea caiu na gargalhada quando repeti a pergunta que tenho feito há meses para biólogos, preservadores e funcionários de zoológicos:
"E o urso panda?"
"Veja isso", ele me respondeu enquanto apontava para fotos na parede de seu escritório no Instituto Smithsonian de Biologia e Conservação (sigla em inglês SCBI), em Front Royal, Virginia, nos Estados Unidos. "É fofo pra caramba", falou, em direção a um retrato em que abraçava os ursos. "Você vê e pensa até se é real ou não. Será que existe uma coisinha assim de verdade?"
McShea, um biólogo pesquisador de bochechas rosadas e óculos, dedicou as duas últimas décadas ao estudo dos pandas. Além das leituras, fez peregrinações anuais à China a fim de estudar o habitat da espécie e, na medida do possível, colaborar com preservadores locais. Se pressionado, ele admite a fascinação profunda por criaturas pouco conhecidas que compartilham o ambiente com o panda - o urso negro asiático, o takin, o Elapholus cephalophus. McShea, porém, não hesita em identificar os motivos que transformam o panda num bicho atraente para todos. Basta, diz, olhar para uma foto, vídeo ou GIF com o a espécie para resolver o mistério.
Com suas orelhas redondinhas, seu pelo fofinho, seu corpo rechonchudo, sua barriga gordinha e seus olhos negros e inconfundíveis, não é difícil entender por que as pessoas ao redor do planeta ficam apaixonadas por pandas. Entretanto, há um grupo crescente de vozes divergentes que os odeiam e de forma bem ativa.
A justificativa tem a ver com privilégio. Os opositores não aceitam muito bem que as características de uma criatura adorável tenham recebido tanta atenção e consciência de preservação e que tenham recebido tantos fundos e ofuscado o drama de outras espécies em perigo de extinção. O esforço para salvar pandas gigantes da extinção, reforçam, é caro, difícil e consome muito tempo. Do tipo que pessoas entendidas dizem ser impossível de conseguir. "Eles são vegetarianos!", "Eles fodem mal!", "Eles só têm um filhote por ano!" O panda é um "beco sem saída evolutivo", argumentam. É uma espécie que deve ser deixada para trás enquanto concentramos nossos esforços em candidatos mais prováveis para a preservação.
Em seu âmago, o debate levanta várias questões para a teoria da preservação. Nunca conseguiremos preservar todas as espécies do colapso, então temos que decidir no que dedicar nosso tempo, atenção e dinheiro? Quais espécies se qualificam e quais devem deixadas para desaparecer na história?
É claro que, se seguirmos adiante com esse raciocínio prático, uma espécie que luta para procriar e definha no ambiente selvagem parece um candidato improvável para se preservar. Ainda mais se sua única qualificação é ser uma gracinha.
Entretanto, quando se parte para o estudo da realidade ecológica, os argumentos para não despender esforços na conservação de pandas não se sustentam. As vantagens de salvar uma espécie com a qual as pessoas se importam são muitas, incluindo as espécies que funcionam como um guarda-chuva para espécies menos dinâmicas e igualmente ameaçadas, como os takins - uma criatura amável e peluda, parecida com um boi, listada como vulnerável - que compartilham o espaço com os pandas.

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