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Uso de inalantes artesanais como droga aumenta em Rio e SP

12/04/2016

Elza* segura Maria*, de 2 meses, nos braços enquanto conta que encontrava no conteúdo de uma pequena garrafa de plástico a satisfação para um dos seus desejos mais intensos ao longo da gravidez. A jovem de 23 anos ignora a composição do loló, mas conhece intimamente os efeitos que a droga produz.
— Às vezes fico quatro dias sem dormir e uso o loló porque me acalma. Quando você dá um “puxinho”, escuta um sino e vê um monte de coisa. Depois de um tempo, sente muita dor no corpo todo — descreve Elza, pele negra, corpo miúdo. — Só não uso perto da minha filha. Vou num cantinho para cheirar e, aí, não amamento, dou a mamadeira. Senão faz até mal à criança, né?
Mãe de quatro filhos — além de Maria, tem meninos de 7, 6 e 3 anos —, ela conta que, nos últimos dois anos, vem reduzindo o consumo de substâncias entorpecentes desde que passou a frequentar o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) Miriam Makeba, em Bonsucesso, Zona Norte do Rio. Eventualmente, consome cocaína, além do loló. Ela desfia histórias infelizes ao explicar porque se lançou ao uso abusivo de drogas. Aos 10 anos, saiu de casa depois de o pai tentar estuprá-la e a mãe agredi-la. Começou a consumir álcool e tíner. De lá para cá, usou “de tudo e mais um pouco”.
Narrativas similares à sua vêm sendo relatadas a profissionais de saúde de Rio e São Paulo. A percepção deles é de que está se intensificando o uso de inalantes fabricados artesanalmente, com substâncias variadas, como cloridrato de etila, éter, soda, removedor de tinta, acetona e até substâncias retiradas de baterias de carro.
Há relatos de óbitos relacionados à inalação. Os especialistas explicam que o consumo do loló é profundamente ligado ao modo como os usuários vivem e constroem relações sociais. E, não raro, é combinado com o de outras drogas, como crack, cocaína e álcool. Os usuários são, sobretudo, jovens em situação de rua e frequentadores de bailes em periferias, os “fluxos” na gíria paulistana. Traficantes vendem as garrafinhas por módicos R$ 5, mas há também a produção feita pelos próprios usuários. As informações sobre o grau de dependência são imprecisas. No entanto, os depoimentos sobre efeitos alucinógenos e colaterais coincidem com os de Elza.

Saiba mais em O Globo

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