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Descoberta de um novo bioma marinho: Os incríveis recifes amazônicos

07/06/2016

Parecia improvável. Mas contra todas as possibilidades e ao contrário de tudo o que diziam os livros, a 100 km da desembocadura do rio Amazonas, sob uma espessa pluma de sedimentos levados pelas águas, floresce um extenso e riquíssimo recife. As condições em que isso acontece apontavam exatamente para o oposto: como a densa camada de sedimentos sobre as águas impede a penetração de luz solar, e consequentemente a fotossíntese – base da cadeia alimentar de recifes de corais de águas tropicais –, acreditava-se ser impossível que existissem. Mas apesar de todos esses indicativos, algumas pistas levavam exatamente na direção contrária: em 1997, um resumo apresentado pelos pesquisadores Bruce B. Collette e Klaus Rützler em simpósio científico internacional sobre recifes de corais, na cidade de Miami, nos Estados Unidos, falava da presença de esponjas e peixes recifais na região da foz do rio Amazonas. Em 1999, o brasileiro Rodrigo Moura e colaboradores também demonstraram a presença de corais na foz sul do rio. Estudos do projeto Piatam Mar apontavam ainda para alta concentração de carbonato de cálcio biogênico naquelas imediações, levantando a possibilidade de recifes na região. Mas foi somente em 2011 que uma equipe de pesquisadores elaborou projeto para explorar a área. Agora, em 2016, confirmou-se a existência de invertebrados, como esponjas de mais de 100 quilos, e rodolitos, algas calcárias que endurecem e unidas a outras espécies acabam formando um recife. E, como constataram os pesquisadores, esse recife é extenso. “O que sabemos é que se estendem por, no mínimo, 900 quilômetros de costa, entre o Maranhão e a Guiana Francesa”, afirma Thompson.
Está tudo no artigo An extensive reef system at the Amazon river mouth, publicado na Science Advances, da American Association for the Advancement of Science, assinado por Moura, do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pelo Cientista do Nosso Estado Gilberto M. Amado, Fernando Moraes, do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e pelos Cientistas do Nosso Estado, da FAPERJ, Fabiano L. Thompson, da UFRJ, e Carlos Eduardo de Rezende, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), que coordenam o projeto, e vários outros pesquisadores do Rio de Janeiro, de universidades do Pará, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Espírito Santo, São Paulo e dos Estados Unidos.
“Em 2012, conseguimos ir até lá com um navio americano. Em 2014, voltamos à região no navio hidroceanográfico Cruzeiro do Sul, da Marinha do Brasil, o que nos possibilitou ampliar a área de estudos”, fala Thompson, que destaca o inusitado das descobertas. “Além das gigantescas esponjas, mais de 50 novas espécies foram enviadas ao biólogo Eduardo Hajdu, do Museu Nacional (MN/UFRJ), para serem descritas”, afirma Thompson.
O pesquisador tem grandes motivos de entusiasmo com a descoberta. Ele explica que o novo bioma compreende três grandes camadas distintas. A primeira delas é formada pela pluma de nutrientes e sedimentos trazidos pelo rio Amazonas, rica em matéria orgânica dissolvida e particulada. É uma camada muito turva, que impede a penetração da luz solar e a fotossíntese, e sua espessura pode chegar a 25 metros de profundidade. “Tudo isso gera uma mudança dramática nesse novo bioma. Sem fotossíntese, não há liberação de oxigênio na água. Logo, o nível de oxigênio naquelas águas decai rapidamente nos primeiros metros de profundidade, atingindo valores entre 3 e 4 mL.L-1. Exatamente por isso, sempre vigorou a ideia da impossibilidade da existência de recifes na desembocadura de rios tropicais barrentos, com grande aporte de sedimentos, como é ocaso do Amazonas”, fala o pesquisador. Thompson explica que isso permanece verdade para os recifes coralinos – aqueles formados pelo acúmulo do esqueleto de corais mortos e que dependem de fotossíntese. “Mas não existe apenas um único tipo de recife. No caso da região amazônica, os recifes do setor norte são formados majoritariamente por esponjas e algas calcárias”, afirma.

A matéria pode ser lida no site da Faperj

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