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Estudo revela que 23 milhões de animais foram mortos na Amazônia

13/10/2016

Um levantamento inédito em registros de entrepostos comerciais na Amazônia revela a dimensão do dano provocado pela caça a grandes animais da região ao longo do século XX. Em pouco mais de seis décadas, entre 1904 e 1969, 23,3 milhões mamíferos e répteis selvagens, de ao menos 20 espécies, foram caçados por causa de suas peles, provocando dano irreparável a algumas populações. Os números apontam dois períodos críticos, sendo o primeiro durante a Segunda Guerra Mundial, por causa da chegada de dezenas de milhares de colonos para exploração da borracha, e o segundo durante a década de 1960, provocado pela alta nos preços internacionais puxados pela indústria da moda.
— E esses números são subestimados — diz Carlos Peres, professor da Universidade de East Anglia, do Reino Unido, e coautor do estudo publicado na quarta-feira, na “Science Advances”. — Isso é somente na região ocidental da Amazônia brasileira, e não conta a mortalidade colateral. Muitos dos animais mortos não chegam a ser coletados pelos caçadores, e muitas peles apodrecem antes de chegar no entreposto.
Os registros mostram que nos primeiros anos do século passado a caça comercial era praticamente inexistente, mas após o colapso da borracha, em 1912, o mercado de peles começou crescer, para substituir a renda antes gerada pelo látex. O aumento foi gradual até a década de 1930, quando os EUA se consolidaram como principais importadores do produto. Com a captura pelos japoneses das plantações de borracha na Malásia durante a Segunda Guerra Mundial, dezenas de milhares de colonos chegaram à região para o segundo ciclo da borracha, e eles tinham na caça um complemento para a renda.
Os caçadores eram, sobretudo, ribeirinhos que atuavam na indústria extrativista que, no tempo livre, caçavam para subsistência, esticavam o couro do animal e vendiam para comerciantes e exportadores. O Censo de 1950 registrou cerca de 89 mil pessoas trabalhando na extração da borracha e da castanha, e apenas 528 que se declaravam caçadores.
Com o fim da guerra, os preços das peles caíram, e só voltaram a subir no início da década de 1960, puxados pela indústria da moda. O segundo pico aconteceu em 1969, quando foi registrado o comércio de 860 mil peles. Durante quatro décadas, entre os anos 1930 e 1960, os dez animais mais explorados movimentaram US$ 500 milhões. Apesar de a caça ter sido banida oficialmente no país em 1967, acordos permitiram uma sobrevida da exploração, para liquidação dos estoques, até 1969.
— Hoje, não é politicamente correto ostentar um casaco de peles, mas nos anos 1950, 1960, era a coisa mais chique do mundo — diz Peres.

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