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Desmatamento do Cerrado pode levar à extinção de 1.140 espécies de plantas

16/10/2018

O Cerrado é o lugar onde a sabedoria popular se materializa em planta. Lá as aparências, de fato, enganam. Onde se veem arbustos de galhos retorcidos há o mais importante sistema de captação e reserva de água do Brasil fora da Amazônia. Um sistema baseado em vegetação e que garante nove das principais bacias hidrográficas do país. Ameaçado pela expansão do agronegócio, reduzido a cerca da metade de seu tamanho original, ele agora caminha para a maior extinção de plantas já registrada no mundo, com consequências para a oferta de água e a regulação do clima do centro-sul do país, alerta um estudo.
Principal autor da pesquisa publicada na “Nature Ecology & Evolution”, Bernardo Strassburg, diretor do Instituto Internacional para a Sustentabilidade, salienta que mesmo que o desmatamento parasse hoje, sem restauração, perderemos 657 espécies de plantas em função dos 46% que já foram desmatados. Se o desmatamento continuar no ritmo atual, a perda será de 1.140 espécies até 2050. Até hoje, foram documentadas extinções de 139 espécies de plantas em todo o mundo. Isso significa que os valores são, respectivamente, 4,7 vezes e 8 vezes maiores do que o que já foi registrado desde 1500.
— Falamos de perda de biodiversidade, de segurança hídrica e climática. Um hectare desmatado de Cerrado tem mais impacto hoje do que um hectare desmatado na Amazônia. Não se trata de impedir a produção agrícola. Ao contrário, ela tem condições de aumentar sem precisar desmatar mais — frisa Strassburg.
Segundo ele, só em áreas degradadas pela pecuária há 76 milhões de hectares. E a pecuária extensiva registra só um boi por hectare enquanto que o viável seriam três. Essas áreas poderiam ser convertidas para a agricultura, assegura:
— Temos as vacas mais solitárias do planeta.
O Cerrado é uma floresta invertida. Cerca de um terço da estrutura das plantas está acima da superfície. Em muitos casos, a extensão das raízes sob o solo é até 20 vezes maior do que sobre a superfície, explica Ricardo Aydar, da Ruraltins, o instituto de desenvolvimento rural do Tocantins, estado que tem a maior extensão preservada de Cerrado contínuo do Brasil.
O Cerrado é um sistema d’água, afirma Aydar:
— A vereda de buritis é a torneira, o cano é a mata de galeria. A caixa d’água fica nos chapadões, onde acontece a infiltração da água da chuva. Quando você coloca soja e gado nas chapadas, muda toda essa dinâmica.
O Tocantins está no coração do Matopiba, região que compreende ainda as áreas de Cerrado de Bahia, Maranhão e Piauí e é a maior fronteira agrícola da Terra.
— As pessoas não valorizam porque não veem nem a metade do que o Cerrado representa. É uma uma biblioteca de biodiversidade — diz Mercedes Bustamante, do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB).

A matéria pode ser lida em O Globo

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