
14/05/2019
Eles ouviam o oceano. E assim se lançaram, dentro de frágeis canoas, pelas águas do Pacífico a fim de descobrir mais terras. Estavam a cerca de 800 anos antes de Cristo, quando ainda se tinha a certeza de que a Terra era plana. Dias e noites depois encontraram e conquistaram outras ilhas, distantes umas das outros centenas de quilômetros, que hoje formam a parte leste da Polinésia, na Oceania. Fizeram as viagens sem instrumentos que lhes ajudassem a navegar.
Nossos antepassados polinésios apenas ouviam o oceano ao desbravá-lo e, assim mesmo, tinham um conhecimento impressionante do sistema. Conheciam as ondas, correntes, nuvens, ventos, estrelas, conseguiam ler o estado do mar e, pelos reflexos nas nuvens, sabiam quando havia uma ilha ao alcance.
Mais de dois mil anos depois - muito mais - hoje nós estamos dirigindo até carro de modo automático, com a tecnologia que fomos conquistando à custa de esforços humanos e outros tantos bens naturais. No entanto, ao mesmo tempo, muitos de nós fomos perdendo um valor intangível, um bem precioso: nossa intuição, nossa capacidade de “ouvir o oceano”. E de estarmos totalmente integrados aos sentidos.
Caminhar por uma rua numa cidade grande apinhada de gente, de carros, ônibus, trens, aviões, vai nos deixando anestesiados dos barulhos que realmente podem nos conectar com a intuição. Para completar, quase sempre estamos acompanhados por um aparelho com tela que nos tira a atenção do olhar e da audição, dois sentidos importantes. Hoje pela manhã, numa rua de Botafogo, fiquei perto/longe de uma mulher que conversava com seu GPS para tentar encontrar o endereço certo para onde precisava ir. Não olhou em volta. Não perguntou a ninguém, não fez nenhum contato com humanos naquela busca.
São reflexões que podem nos levar a algumas perguntas válidas sobre a condição humana. No sábado à tarde, estive mergulhada nesses pensamentos enquanto assistia, em grupo, o documentário islandês “Innsaei – o poder da intuição”. Recomendo para quem, como eu, está perplexo com o estado das coisas, as mudanças do clima, o menosprezo das autoridades às notórias circunstâncias que nos levam ao aquecimento global, as questões de saúde precária, de alimentação pouco saudável, de ingestão absurda de agrotóxicos de muita química, da perda de biodiversidade. Enfim. Como começar a mudar, de dentro para fora?
O documentário é contado em primeira pessoa por uma ex-funcionária da ONU, a islandesa Hrund Gunnsteinsdottir, que teve um colapso nervoso por causa do excesso de trabalho que veio junto com a decepção ao perceber que a organização está muito burocrática, com pouca sensibilidade para distinguir os pequenos dramas humanos. Demitiu-se, juntou-se a uma amiga que tinha um projeto para ajudar crianças a fazerem contato com o mundo atual de uma forma mais vinculativa.
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