
30/05/2019
Desde 2010, o antropólogo Thiago Lopes da Costa Oliveira vinha usando o acervo do Museu Nacional para seu trabalho de doutorado. Recorria às 1.500 peças da cultura material dos indígenas do Alto do Rio Negro, na Amazônia , para construir um banco de dados de sua pesquisa . Então veio a tragédia. Em setembro do ano passado, com o incêndio no museu, a coleção foi devastada, bem como boa parte do acervo da instituição.
O pesquisador diz que perdeu "um projeto de vida" e teria interrompido por completo a pesquisa não fosse um socorro vindo de fora do país — US$ 250 mil (ou cerca de R$ 1 milhão) investidos pelo governo dos Estados Unidos em apoio a 14 cientistas brasileiros, "órfãos" do acervo do Museu Nacional . O Departamento de Estado americano e do Instituto Smithsonian vem bancando as bolsas de pesquisa desses cientistas, por meio de um projeto com a embaixada do Brasil em Washington.
— Quando se perde tudo, até a sala em que você trabalhava, a sensação é de desolamento completo — lamenta Thiago. — Esse apoio que eles deram possibilitou que a gente continuasse mantendo a perspectiva de trabalho, a noção de que a gente faz parte de uma comunidade científica mais ampla.
Dos cientistas brasileiros apoiados pelo projeto, alguns passaram semanas nos EUA e já retornaram ao Brasil; outros, permanecerão por meses. Dez foram para o Museu Nacional de História Natural pesquisar temas nas áreas de Entomologia, Antropologia, Paleobiologia e Zoologia. Os outros quatro para o Centro para Herança Cultural e Folclórica, estudar línguas indígenas.
A coordenadora do Instituto Smithsonian, Lynne Parenti, explica que a opção pelo programa de intercâmbio veio da conclusão de que essa seria a maneira mais rápida de agir.
— Ficamos devastados quando vimos fotos do fogo no museu no Rio. Queríamos fazer algo imediatamente — diz Lynne. — Imagino que alguns deles, que estavam trabalhando em seus mestrados ou doutorados, tenham pensado: nunca mais poderei ser biólogo, porque tudo foi perdido. Mas nós podemos ajudá-los a retomar seus estudos.
A paleontóloga Beatriz Marinho Hörmanseder estava animada para anunciar a existência de uma nova espécie de crocodiliano encontrada em um fóssil brasileiro pouco antes de o incêndio acontecer. Ela vinha trabalhando no fóssil de 150 milhões de anos desde a graduação. Com o estudo, ajudaria a desenhar a árvore filogenética do animal. Esse tipo de pesquisa de evolução das espécies pode contribuir, por exemplo, para medir mudanças climáticas ao longo das eras geológicas.
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