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El Niño e desmatamento ameaçam besouros da Amazônia

11/02/2020

Um grupo de biólogos mapeou a abundância de besouros em 30 localidade diferentes da Amazônia antes e depois de 2016, quando ocorreu um forte evento de El Niño, o superaquecimento das águas do Pacífico, que acaba provocando secas na região. A perturbação climática, aliada ao desmatamento e à degradação, reduziu as populações de besouros da floresta a menos da metade, estimam os cientistas.
O resultado é suficientemente preocupante do ponto de vista apenas dos besouros, mas o problema não para aí. Os rola-bosta, que ganharam esse nome por empurrarem as bolas de fezes que usam como alimento e abrigo, são importantes para distribuir sementes e nutrientes pela mata, e sua redução pode sinalizar um enfraquecimento do ecossistema em questão.
Em artigo publicado na revista científica Biotropica, os pesquisadores relatam que, usando o mesmo número de armadilhas, foi possível coletar mais de 8.070 insetos nos locais mapeados em 2010, mas nas mesmas áreas só se encontrou 3.733 besouros rola-bosta logo após o período de El Niño, em 2016. Em 2017, o colapso das populações havia sido ainda maior, com apenas 2.648 besouros tendo sido capturados.
“As maiores perdas imediatas, em 2016, foram verificadas em florestas afetadas por incêndios”, escrevem os cientistas, liderados por Filipe França, da Embrapa Amazônia Oriental, de Belém. A pesquisa toda envolveu onze biólogos de dez instituições diferentes. O trabalho de campo acabou com a coleta de mais de 14 mil besouros rola-bosta, de 98 espécies diferentes do gênero Scarabeinae em três municípios do Pará.
Segundo os pesquisadores, como o evento de El Niño de 2016 não costuma acontecer com frequência nessa intensidade, é possível que as populações de besouro possam se recuperar. Dois fatores, porém, preocupam os biólogos: a mudança climática, que pode tornar as secas amazônicas mais frequentes, e a própria degradação florestal, que afeta a biodiverisdade da floresta. Se esse tipo de perturbação ecológica ficar mais frequente, o tempo para repovoar as florestas pode não ser suficiente para os besouros.
“A perda desses besouros trabalhadores pode indicar um problema maior, porque muitos mamíferos vivendo na floresta podem também ter sucumbido à seca e aos incêndios”, afirma França, em comunicado à imprensa.
“Os rola-bosta dependem das fezes de animais para reprodução e alimentação, por isso o declínio na população desses besouros está provavelmente associado à perda de mamíferos devido à seca e aos incêndios do El Niño.”
Para estimar o impacto da perda dos besouros, os cientistas mapearam não apenas seu número, mas sua riqueza de espécies, sua biomassa, a quantidade de esterco removida e a dispersão de sementes. Todos esses marcadores se mostraram reduzidos, acompanhando a redução de população dos insetos estudados. Os besouros, afirmam os pesquisadores, podem vir a se mostrar um indicador importante para a saúde geral da biodiversidade da floresta.

Fonte: O Globo

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