
24/08/2021
A pandemia de Covid-19 interrompeu o turismo no Alasca no ano passado. O que será que vai acontecer com a majestosa baleia-jubarte quando os navios de cruzeiro e os visitantes retornarem em agosto?
Christine Gabriele senta à sua mesa na sede do Parque Nacional de Glacier Bay em Gustavus, no Alasca, e aumenta o volume do computador.
O som de água borbulhante envolve a sala. A calmaria é ocasionalmente pontuada pelo rugido de uma foca-comum macho, tentando impressionar parceiros em potencial.
O computador de Gabriele está na ponta de um cabo subaquático de oito quilômetros que se estende até as águas geladas da baía, uma reserva nacional repleta de peixes, pássaros, lontras marinhas, golfinhos, focas apaixonadas e a atração da área — centenas de baleias-jubarte, que migram para o Alasca das águas da costa do Havaí durante os meses de verão.
O que tem sido notável nos últimos 18 meses é que ela não tem ouvido tantos navios.
Durante um verão normal, a Glacier Bay e a área circundante apresentam um tráfego intenso, à medida que embarcações de todos os tamanhos, desde enormes navios de cruzeiro de 150 mil toneladas até barcos menores de observação de baleias, navegam em suas águas como parte da forte indústria de turismo do sul do Alasca.
A pandemia de Covid-19 suspendeu tudo isso repentinamente. Em 2019, mais de 1,3 milhão de pessoas visitaram o Alasca em navios de cruzeiro. Em 2020, foram 48 — nem sequer o suficiente para encher um vagão do metrô de Nova York.
O tráfego marítimo na Glacier Bay como um todo caiu cerca de 40%.
São necessários cerca de alguns minutos ouvindo o áudio suave do hidrofone em uma manhã de quinta-feira, no fim de maio, até escutar vestígios de atividade humana — neste caso, o "gemido" agudo da hélice de um pequeno barco.
De acordo com um estudo conduzido por Gabriele e Michelle Fournet, pesquisadora da Universidade Cornell, nos EUA, o nível de som artificial em Glacier Bay caiu drasticamente em relação aos níveis de 2018, especialmente nas frequências mais baixas geradas pelos enormes motores dos navios de cruzeiro.
Os níveis máximos de som caíram quase pela metade.
Tudo isso proporcionou aos pesquisadores uma oportunidade sem precedentes de estudar o comportamento das baleias em um tipo de ambiente silencioso que não existia na área há mais de um século.
Ao analisar dados dos hidrofones e levar um pequeno barco do parque à Glacier Bay três vezes por semana para fotografar e identificar as baleias, Gabriele já notou mudanças.
Ela comparou a atividade das baleias antes da pandemia ao comportamento humano em um bar lotado. Elas falavam mais alto, ficavam mais próximas e mantinham uma conversa simples.
Agora, as jubartes parecem estar dispersas por áreas maiores da baía. As baleias podem ouvir umas às outras ao longo de cerca de 2,3 km, em comparação com distâncias menores, de 200 m, antes da pandemia.
Isso permitiu que as mães deixassem seus filhotes brincando enquanto nadavam para se alimentar. Alguns foram observados tirando sonecas.
E os cantos das baleias — os gritos e estalidos fantasmagóricos pelos quais as criaturas se comunicam — se tornaram mais variados.
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