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Vírus letal reduz em 83% população de pererecas em reserva da mata atlântica

25/08/2026

Um patógeno altamente letal está por trás da morte em massa de girinos e do rápido declínio populacional de anfíbios na mata atlântica. Um grupo de pesquisadores comprovou, pela primeira vez na América do Sul, que surtos recorrentes de ranavirose provocaram uma queda de 83% na reprodução da perereca-macaco (Phyllomedusa distincta) em uma lagoa de Santa Catarina. A doença é causada por um vírus que afeta também répteis e peixes.
O estudo, publicado na última quinta-feira (20) na revista Biodiversity and Conservation, fornece a primeira evidência robusta de que o ranavírus é capaz de causar o colapso de populações silvestres sul-americanas, um risco de extinção já documentado na Europa. Os dados revelam ainda que essa ameaça se torna mais grave em períodos secos, com a baixa umidade do ar favorecendo os surtos da doença.
O ranavírus é facilmente encontrado infectando rãs-touro (Aquarana catesbeiana) em criações comerciais ou na natureza, geralmente sem causar doença. Nas últimas décadas, porém, aumentaram os relatos de mortandades suspeitas —possivelmente desencadeadas por esse patógeno— de espécies nativas nas Américas do Sul e do Norte. Pesquisadores e ambientalistas temem que outros casos de morte em massa causados pelo vírus estejam ocorrendo sem que ninguém saiba.
Nos girinos, a infecção avança de forma rápida e devastadora, causando a destruição e a necrose de tecidos em órgãos vitais, como o fígado. Os sinais clínicos visíveis a olho nu incluem inchaço abdominal (edema), vermelhidão extrema, úlceras e múltiplas hemorragias, que podem ocorrer inclusive dentro dos olhos dos animais.
"Apesar de várias mortes suspeitas documentadas no continente americano, é a primeira vez que se comprova a ranavirose, por meio de análises dos tecidos [histológicas] dos fígados dos animais e [da análise] dos vírus isolados deles, como causa das mortes em uma espécie nativa", conta Aline Fonseca, que realizou o trabalho como parte de seu doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
O primeiro evento de mortandade na lagoa ocorreu em janeiro de 2024, seguido por dois outros, entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 e entre novembro de 2025 e março de 2026. No total, foram encontrados 324 girinos mortos, sendo 315 de perereca-macaco e nove da perereca-de-pijama (Boana bischoffi).
Entre as pererecas-macaco, 279 (88,6%) testaram positivo para o ranavírus, enquanto as pererecas-de-pijama infectadas foram oito (88,9%). A carga viral das pererecas-macaco foi considerada alta, com quase 10 bilhões de cópias do vírus por microlitro de amostra, enquanto nas pererecas-de-pijama esse valor foi de cerca de 2 bilhões. O número de pererecas-de-pijama mortas, no entanto, foi considerado pequeno para caracterizar uma mortandade em massa.
Para comprovar os sinais clínicos da doença, 13 girinos tiveram os fígados analisados por histologia, técnica que verifica danos aos tecidos e às células usando um microscópio. As lesões encontradas confirmaram o quadro severo da infecção.
As mortes ocorreram na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário Rã-Bugio, no município de Guaramirim, em Santa Catarina.
O estudo integra o projeto "Da história natural à conservação dos anfíbios brasileiros", apoiado pela Fapesp e coordenado por Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Também financiaram o trabalho o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e o Ministério da Ciência, Inovação e Universidades da Espanha.
Além de comprovar a ranavirose como causa das mortes, os pesquisadores compilaram dados do clima duas semanas antes e durante os eventos de mortandade, a fim de encontrar possíveis associações com os óbitos.
"Realizamos análises estatísticas que pudessem apontar mudanças ambientais e climáticas capazes de contribuir para as mortes, mas nenhum fator teve um peso tão significativo sobre o declínio da população como a ranavirose", explica Karla Campião, professora da UFPR que orientou o doutorado de Fonseca e que obteve o financiamento do CNPq para o trabalho.
A constatação do declínio da população foi possível graças ao monitoramento contínuo da lagoa, realizado desde 1999 por Germano Woehl Jr. e Elza Nishimura Woehl, do Instituto Rã-Bugio para Conservação da Biodiversidade, que também assinam o estudo.
Diariamente no período reprodutivo, entre junho e fevereiro, são contadas quantas massas de ovos há em torno da lagoa. As massas são depositadas sobre folhas da vegetação, que são dobradas pela fêmea ao redor dos ovos, protegendo-os do ressecamento. Quando os ovos eclodem, os girinos caem diretamente na água.

A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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