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Workshop sobre clima vira encontro disputado em bar brasileiro em Paris

24/08/2023

Numa noite recente de verão no centro de Paris, algumas pessoas foram a um bar brasileiro da moda onde a música era bossa nova, passaram por fregueses tomando caipirinhas e subiram uma escada de madeira nos fundos. Foram dar em uma salinha com uma mesa sobre a qual estavam dispostos grandes cartões impressos com gráficos explicando a ciência por trás da mudança climática.
Um rapaz os recebeu dizendo "sejam bem-vindos. Vamos nos divertir."
Nas três horas seguintes, o grupo usou os cartões para recriar a cadeia do aquecimento global, tentando entender fenômenos como forçamento radiativo e acidificação oceânica. Depois disso discutiram sobre a possibilidade de limitar viagens aéreas, que consomem muita energia, e o desenvolvimento de energia nuclear.
O grupo estava participando do "Climate Fresk", workshop organizado por uma ONG do mesmo nome que ensina os aspectos básicos do aquecimento global e destaca possíveis soluções. Os workshops viraram uma alternativa descolada para uma noite fora; mais de 1 milhão de pessoas já participaram deles na França.
Os workshops Climate Fresk, cujo nome vem do cartaz que os participantes criam com os cartões, estão ganhando popularidade no momento em que a Europa enfrenta verões mais quentes ligados à mudança climática.
Desde que os Climate Fresks começaram, em 2018, eles vêm ganhando adesão crescente entre o público e organizações privadas que querem incentivar as pessoas a entrar em ação a favor do ambiente. A França se comprometeu a reduzir suas emissões de carbono e cortar resíduos drasticamente. Grandes universidades, empresas e até mesmo alguns departamentos governamentais estão enviando cada vez mais estudantes, trabalhadores e funcionários públicos para os workshops.
Os workshops já estão chegando a outros países. Foram traduzidos para cerca de 50 línguas, e mais ou menos 200 mil pessoas fora da França já participaram, incluindo nos Estados Unidos.
Alguns ativistas verdes e peritos ambientais criticam os workshops por não ir longe o suficiente e não questionar as decisões políticas e econômicas que aceleram a mudança climática.
Cédric Ringenbach, criador do Climate Fresk, disse que o workshop enfoca a ciência por trás da mudança climática e deixa que os participantes formem suas próprias opiniões.
"Não é o cartaz que vai desafiar o paradigma político-econômico", ele disse, "são os próprios participantes que chegam a essas conclusões. Nós estamos aqui para abrir o caminho."
O workshop é baseado em relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), um organismo da ONU. Ele utiliza 42 cartões que representam as diversas etapas da mudança climática, desde o uso de combustíveis fósseis até o derretimento de geleiras. Com a ajuda de um facilitador, os participantes devem dispor os cartões sobre uma grande folha de papel de modo a representar as causas e consequências da mudança climática.
"Não é fácil", disse Ariane Prin, que participou do workshop no bar brasileiro, olhando para um cartão sobre gases estufa pouco conhecidos que aquecem o planeta.
Em volta dela, participantes debatiam o processo de disrupção do ciclo da água, com preocupação estampada em seus rostos enquanto posicionavam cartões que mostravam imagens desoladoras de enchentes e secas. Eles desenharam setas entre os cartões para ilustrar as ligações entre desmatamento e emissões de dióxido de carbono. Intitularam seu cartaz "O Mapa da Consciência".
"Diante deste mapa, nós nos sentimos tão pequenos", falou Prin. "Mas também nos sentimos empoderados, porque já aprendemos muito."
A popularidade dos workshops Climate Fresk ecoa um interesse crescente na França em compreender as alterações ambientais que afetam o país, quer sejam os incêndios descontrolados no sul ou a elevação do nível do mar que está provocando a erosão das praias na Normandia. O livro mais vendido na França no ano passado foi uma HQ sobre a crise climática, "Le Monde Sans Fin" (o mundo sem fim), que vendeu mais de 500 mil exemplares.

A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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