
11/08/2026
A Petrobras selecionou uma empresa para aquisição de créditos de carbono, gerados a partir de restauração florestal na amazônia, cujo dono é sócio de uma madeireira punida –pelo próprio governo federal– por irregularidades na exploração de madeira numa concessão florestal em área preservada no bioma.
A seleção foi feita dentro de um programa chamado ProFloresta+, iniciativa conjunta da Petrobras e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Em 22 de junho, numa cerimônia no Rio com a participação do presidente Lula (PT), as estatais anunciaram as três empresas selecionadas para o fornecimento de 5 milhões de créditos de carbono à petrolífera –cada crédito é equivalente a uma tonelada de CO2 que deixa de ser lançada na atmosfera.
Os créditos serão gerados a partir da restauração de áreas amazônicas degradadas e servirão para compensar emissões de CO2 de produtos desenvolvidos pela Petrobras. Ao BNDES caberá financiar as iniciativas de reflorestamento.
Uma das empresas selecionadas é a brCarbon, que ficou responsável por um lote de 2 milhões de créditos de carbono. Cada crédito –ou cada tonelada de CO2– foi estimado em US$ 55,76 (R$ 284). Assim, o valor dos créditos pode chegar a US$ 111,5 milhões (R$ 569 milhões), em 25 anos.
Um dos donos da brCarbon é o empresário Ricardo Batista Tamanho. Ele representou a empresa no ato com o presidente Lula e foi chamado ao palco para um cumprimento aos vencedores do leilão voltado ao projeto de créditos de carbono.
Tamanho é sócio da madeireira Samise. Quatro dias antes do evento com Lula, em 18 de junho, o SFB (Serviço Florestal Brasileiro) –vinculado ao MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima)– puniu a Samise em razão de irregularidades detectadas na exploração de madeira na Flona (Floresta Nacional) de Saracá-Taquera, no noroeste do Pará.
A Flona tem 441,1 mil hectares, e a Samise tinha concessão florestal desde 2014 para manejo de madeira em 59,4 mil hectares. Diante das irregularidades detectadas, o SFB rescindiu e extinguiu o contrato, multou a empresa em R$ 201,6 mil e aplicou quatro advertências. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União em 22 de junho, mesmo dia da cerimônia de BNDES e Petrobras.
A Folha obteve cópia do processo aberto pelo SFB, a partir de um pedido formulado via LAI (Lei de Acesso à Informação).
Entre as irregularidades da Samise detectadas na concessão florestal, citadas em documentos do processo, estão uso de informações falsas sobre origem e volume da madeira no sistema de custódia; áreas de produção com quase o dobro do tamanho previsto para o ciclo de exploração de toras; ausência de auditorias; e descumprimento de medidas de monitoramento.
Os pareceres técnicos apontam ainda ausência de brigadas de incêndio; falta de alerta sobre presença de pessoas estranhas na área da Flona; localização e destinação desconhecidas de toras; uso de motosserra sem autorização; e descumprimento de indicadores básicos, como redução de danos à floresta, investimento em serviços a comunidades e geração de empregos.
A reportagem na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo
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