
11/08/2026
Enquanto São Paulo recebe a Climate Week 2026 e se apresenta ao mundo como referência latino-americana em inovação urbana e justiça climática, a cidade enfrenta um teste que não ocorre nos palcos do evento, mas no território: o julgamento que decidirá o futuro do antigo Bosque dos Salesianos, no Alto da Lapa, onde 118 árvores adultas foram derrubadas para a construção de duas torres residenciais.
O processo, que opõe o Ministério Público à Prefeitura e à incorporadora Tegra, não se limita à discussão jurídica. Ele expõe a contradição de uma metrópole que busca liderar a agenda ambiental no Brasil e na América Latina, mas que ainda permite que áreas protegidas sejam destruídas antes que a Justiça finalize sua análise. A decisão não é apenas sobre um terreno, mas sim sobre o tipo de cidade que São Paulo pretende ser.
A City Lapa nasceu há mais de um século inspirada no conceito das Cidades-Jardim. Criado em 1898 pelo urbanista inglês Ebenezer Howard, o movimento tinha como premissa um planejamento urbano homogêneo e orgânico, com ruas arborizadas, baixa densidade e grandes áreas permeáveis. O conceito, com passagens ajardinadas e arborizadas, vegetação pública e residências baixas, foi trazido para o Brasil pelo arquiteto inglês Barry Parker. Hoje, City Lapa, Alto da Lapa, Bela Aliança e Pinheiros formam a maior manta verde contínua da região central da capital, essencial para infiltração de água, redução de enchentes, recarga de aquíferos e regulação térmica.
Em uma metrópole que enfrenta ondas de calor recordes, enchentes recorrentes e impermeabilização acelerada, cada árvore adulta cumpre uma função ambiental que não pode ser substituída por compensações dispersas ou plantios simbólicos. O Bosque dos Salesianos, protegido pelo Decreto Estadual nº 30.443/1989 como “vegetação significativa” e, portanto, “imune de corte”, era parte desse sistema vital.
Mesmo assim, o bosque foi derrubado, apesar de contar ainda com laudo técnico do CAEX, órgão especializado do Ministério Público, que atestava sua relevância ambiental. A decisão judicial que determinou a suspensão das intervenções chegou tarde demais.
A destruição do bosque mobilizou moradores de toda a cidade. Mais de 26 mil pessoas apoiam o projeto de lei que tramita na Câmara Municipal e propõe a criação do Parque Bosque dos Salesianos, com reposição da vegetação significativa e proteção permanente da área.
A mobilização não é contra o desenvolvimento urbano. São Paulo precisa crescer, inovar e se modernizar. Mas esse crescimento precisa ser ordenado, legal e responsável, especialmente quando envolve áreas protegidas e quando a população expressa, de forma clara e pacífica, sua oposição.
Em uma cidade que já sofre com enchentes, calor extremo e perda acelerada de áreas verdes, derrubar árvores adultas não é apenas uma questão ambiental: é uma decisão que afeta a saúde pública, a qualidade de vida e o legado que deixaremos às próximas gerações.
Na última semana, um julgamento poderia reconhecer a gravidade da devastação e reafirmar a importância estratégica do bosque para a cidade. Também é importante para que a sociedade acompanhe, cobre e participe, porque decisões sobre o território urbano dizem respeito a todos nós.
A contradição é evidente: o Bosque dos Salesianos foi derrubado durante a COP30, enquanto o mundo discutia justiça climática. Agora São Paulo pode mostrar que é capaz de alinhar discurso e ação.
Se a cidade mais importante da América Latina deseja liderar a agenda climática com políticas de proteção, preservação, resiliência e urbanismo inteligente, decisões como esta precisam refletir essa ambição. A proteção das áreas verdes não é obstáculo ao desenvolvimento: é condição para que ele seja sustentável, justo e duradouro.
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