
24/10/2023
Em 15 de agosto, um pequeno incêndio foi detectado nas colinas acima de West Kelowna, na Colúmbia Britânica, no Canadá. A paisagem estava seca, e o vento, forte. Nos dias seguintes, o modesto incêndio se transformou em uma conflagração furiosa.
Ele se espalhou pelo vale em direção ao lago Okanagan. O vento soprou brasas por cima da água, provocando novos incêndios ao redor da cidade de Kelowna.
"Eu quase não dormi na noite em que os incêndios de West Kelowna atravessaram o lago", disse Karen Hodges, que mora em Kelowna. "Eu podia ver os incêndios da minha janela. E então ficava pensando nas pessoas que conheço no vale e onde ficavam suas casas."
Hodge, ecologista conservacionista da Universidade de British Columbia Okanagan, também se viu preocupada com a vida selvagem. Ela vinha estudando corujas ocidentais que fazem ninhos bem no local que estava no coração daquele incêndio rápido e avassalador. "Um fogo nessa velocidade seria difícil para os animais evacuarem", disse ela.
As corujas conseguiram escapar a tempo? E depois da pior temporada de incêndios florestais já registrada no Canadá, o que restaria para os sobreviventes?
O fogo é um fenômeno natural: algumas espécies realmente se beneficiam de seus efeitos e até mesmo aquelas que não se beneficiam podem ser notavelmente resilientes diante das chamas. Mas, à medida que os incêndios se intensificam, eles estão começando a superar a capacidade da natureza de se recuperar.
"Nem todos os incêndios têm o mesmo impacto", disse Morgan Tingley, ecologista da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles). "Esses megaincêndios não são bons para os ecossistemas."
Megaincêndios, que são muito maiores do que os incêndios florestais típicos, têm um impacto ecológico imediato, matando plantas e animais que poderiam ter sobrevivido a incêndios mais contidos. A longo prazo, as mudanças nos padrões de incêndio podem levar algumas espécies à extinção, transformar paisagens e remodelar completamente os ecossistemas.
Essa era incendiária, que alguns cientistas chamam de Piroceno, poderia levar a "uma transformação em massa dos hábitats que existem no planeta", disse Hodges. "Atualmente, todos estão falando sobre incêndios e fumaça e quem morre, devido à imediatez deste ano de incêndios. Mas, na realidade, as consequências de longo prazo são muito mais graves e duradouras."
O fogo tem sido um fenômeno planetário por centenas de milhões de anos, e as plantas e animais que evoluíram em regiões propensas a incêndios se adaptaram a queimadas periódicas. Algumas árvores possuem raízes que podem rebrotar mesmo se o tronco queimar, enquanto o simples cheiro de fumaça despertará alguns animais do torpor, uma forma de hibernação leve.
Mas, em muitas regiões e ecossistemas, os incêndios estão se tornando maiores e mais graves. Nos Estados Unidos, os incêndios florestais queimam muito mais terras hoje do que há três décadas, especialmente nos estados do oeste.
Globalmente, o risco de incêndios catastróficos pode aumentar em mais de 50% até o final do século, conforme relatado pelas Nações Unidas.
A mudança climática é em parte culpada, disseram os cientistas, mas também existem outros fatores, como a expansão de gramíneas invasoras altamente inflamáveis, que ajudaram os incêndios mortais em Maui, no Havaí, a se espalharem tão rapidamente.
Mais de um século de supressão de incêndios também deixou algumas florestas densas de árvores, fornecendo mais combustível para as chamas. "Quando os incêndios chegam, queimam com maior intensidade", disse Chris French, vice-chefe do Sistema Nacional de Florestas dos Estados Unidos.
Mesmo organismos adaptados ao fogo podem ser derrotados. No norte da Austrália, os lagartos de crista podem sobreviver a incêndios de baixa intensidade se escondendo na copa das árvores. Mas, durante incêndios severos, quando as chamas se elevam, os lagartos que utilizam essa estratégia podem perecer.
Os incêndios também estão se espalhando para ecossistemas onde as chamas são uma ameaça desconhecida. Os megaincêndios que eclodiram na Austrália em 2019 e 2020 queimaram as florestas tropicais do país, que continham muitas plantas que não conseguem se regenerar após a queima.
Incêndios que consomem mais combustível também podem produzir mais fumaça por unidade de área queimada, ameaçando animais distantes das chamas. "Todos os animais que respiram ar serão afetados pela exposição à fumaça, porque as substâncias químicas presentes na fumaça são tóxicas", disse Olivia Sanderfoot, ecologista da UCLA.
A inalação de fumaça pode causar mais do que problemas respiratórios. Meses após incêndios graves em turfeiras produzirem poluição do ar recorde na Indonésia em 2015, os orangotangos de Bornéu vocalizaram com menos frequência e suas vozes se tornaram mais ásperas.
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