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Pobreza energética: uso de lenha em cozinhas domésticas improvisadas ainda é questão de saúde pública no Brasil

26/06/2025

Em muitas regiões do Brasil, especialmente em áreas rurais, o fogão a lenha ainda é o principal meio de cozinhar. Em alguns casos, a prática é mantida por tradição. Em outros, é resultado da dificuldade de acesso a combustíveis mais limpos. Segundo o Observatório Brasileiro de Erradicação da Pobreza Energética (Obepe), cerca de 440 mil pessoas vivem em situação de pobreza energética no país, principalmente no Norte e Nordeste.
Os dados mais recentes do Balanço Energético Nacional (2024) revelam que a lenha representou 25% do consumo de energia residencial no Brasil, superando o gás liquefeito de petróleo (GLP) em 21,1%.
É sabido que a queima da lenha libera poluentes no ar, mas qual o real impacto dessa prática para a saúde das famílias e para o meio ambiente? Ainda há poucas pesquisas no Brasil que respondam a essa pergunta.
Nosso grupo de pesquisa, no Departamento de Química da PUC-Rio, buscou preencher essa lacuna com uma investigação sobre a qualidade do ar dentro das cozinhas que utilizam lenha como combustível principal.
Nosso estudo, que acaba de ser publicado na revista científica Environmental Monitoring and Assessment, foi realizado em uma comunidade quilombola no município de Cachoeira, na Bahia. Em parceria com o projeto Fogão do Mar, do Instituto Perene – uma associação civil privada, sem fins lucrativos –, foram instalados fogões a lenha ecoeficientes em casas que antes usavam fogões improvisados, feitos de tijolos, barro, restos de equipamentos ou simplesmente um fogo no chão com uma trempe.
Os fogões a lenha ecoeficientes são feitos de alvenaria e possuem chaminés e com isso esperávamos um menor uso de lenha e exposição à fumaça. A equipe do nosso laboratório testou a qualidade do ar nas cozinhas de seis famílias que aceitaram participar da pesquisa, antes e depois da substituição dos fogões.
Monitoramos amostras de ar nessas casas por oito horas diárias, de 8h às 16h, período médio de uso dos fogões. A lenha foi pesada antes do uso para acompanhar o consumo. Como comparação, coletamos dados em residências com estrutura semelhante em outro conjunto habitacional localizado em São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro, que utilizam GLP como fonte de energia.
Os resultados foram impactantes, principalmente com relação às concentrações médias de partículas mais finas, que penetram profundamente nos pulmões (PM2.5) e partículas inaláveis maiores (PM10).
Esses poluentes são associados a doenças respiratórias, cardiovasculares e até câncer. Por serem invisíveis e sem odor, essas partículas passam despercebidas pelas famílias, mesmo em níveis críticos.
Nas casas com fogões rudimentares de lenha, encontramos níveis altíssimos de PM2.5, com média de 143 microgramas por metro cúbico de ar (μg/m³). Para o PM10, a média foi de 210 μg/m³. Mas, em algumas casas, o nível ultrapassou 1000 µg/m³, cerca de 20 a 40 vezes o limite diário recomendado pela Organização Mundial da Saúde (15 µg/m³).
Já a parte de fora das casas tinha o ar com baixas concentrações dessas partículas (cerca de 5 μg/m³ de ambos tipos), evidenciando que a fonte da poluição realmente estava dentro dos lares. De acordo com a OMS, essas partículas, especialmente PM2.5, são os poluentes mais tóxicos, responsáveis por milhões de mortes prematuras anualmente e custos elevadíssimos aos sistemas de saúde.
A substituição de fogões rudimentares por modelos ecoeficientes reduziu as emissões de partículas inaláveis em 50% a 60% – a emissão média foi de 64 µg/m³ PM10 e 50 µg/m³ PM2.5. A quantidade de lenha necessária para preparar as refeições também caiu pela metade. Os novos modelos têm chaminés e câmaras de combustão otimizadas, o que fez muita diferença nos resultados. As famílias relataram melhora no bem-estar, menos fumaça acumulada e menos tempo gasto coletando lenha.
A comparação entre as três tecnologias de cozimento confirmou que a combustão de gás (GLP) emite menos poluentes particulados e gases de efeito estufa. As emissões de partículas finas foram de 10 a 20 vezes menores nas casas que usavam o gás (médias de 20 µg/m³ PM10 e 10 µg/m³ PM2,5). Também registramos menor concentração de formaldeído nas cozinhas com fogões a gás. No entanto, os níveis de CO₂ foram estatisticamente semelhantes entre os três tipos de fogão.

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