
05/11/2026
A presidência brasileira da COP30, cúpula das Nações Unidas sobre mudança climática realizada em Belém, no ano passado, publicou nesta terça-feira (3) documentos para ajudar o mundo a fazer a transição dos combustíveis fósseis e zerar o desmatamento. Os chamados mapas do caminho foram uma promessa feita ao final do evento, em novembro.
Os documentos abordam os principais responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa que causam o aquecimento global: a energia responde por 75% delas, e a perda de florestas, por 11%.
O roteiro para a transição global da energia suja sugere um cronograma que se iniciaria em 2027, mapeando as necessidades de cada país, criando incentivos fiscais e focando o combate às emissões de metano.
Entre 2028 e 2030, o foco seria expandir o acesso à distribuição e produção de energia de baixa emissão. Com isso, até 2033, haveria a diversificação da oferta mundial de energia e o fortalecimento da segurança energética.
O plano não nomeia países, nem estabelece metas individuais. Reforça, porém, o conceito adotado no Acordo de Paris de que aqueles que enriqueceram produzindo carbono ao longo da história devem ser os primeiros a mudar sua matriz energética.
Também traz 12 modelos nacionais (batizados de arquétipos), distribuídos em três pilares: demanda de energia, oferta de energia e economia. A ideia é que as nações consigam mapear a sua dependência da energia suja respondendo a duas perguntas centrais: quais são a escala e a complexidade da transformação energética e econômica exigida e quais as suas condições para realizá-la.
Por exemplo, o roteiro orienta um país produtor de petróleo e rico a redirecionar os subsídios estatais e reduzir drasticamente as emissões de metano. Outro caso seria o de uma economia em desenvolvimento dependente de importações de combustíveis fósseis, que deveria traçar estratégias para adotar fontes solares e eólicas.
Com isso, o texto reconhece que não há uma receita única para fazer a transição energética no mundo. Ao avaliar tanto a exposição de um país aos combustíveis fósseis quanto sua capacidade de conduzir a transição, o plano oferece a cada governo uma lista priorizada, passo a passo, das políticas que devem ser implementadas primeiro. Não foi informado em qual categoria o Brasil se encaixaria.
O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, ressalta que os planos apresentados são voluntários e não fazem parte das negociações formais das COPs climáticas. Apesar disso, baseiam-se no que já foi acordado na COP28, em Dubai, quando, pela primeira vez, os países concordaram com a necessidade da transição para longe dos combustíveis fósseis de forma justa, ordenada e equitativa.
"A intenção é acentuar que nós estamos numa outra etapa: que isso já foi aprovado e que agora temos que fazer", explica. "A mudança do clima está vindo muito mais rápido do que o ritmo das negociações."
A iniciativa foi elogiada por organizações da sociedade civil brasileiras e internacionais. "A presidência da COP30 coloca a transição dos combustíveis fósseis onde ela deve estar: no centro tanto da cooperação climática mundial como do planejamento econômico nacional", diz Kat Peterson, que lidera o programa de diplomacia para energia limpa do think tank E3G.
Para Stela Herschmann, especialista em política internacional da rede de ONGs Observatório do Clima, o documento dá uma lição de casa para todos os países, qualquer que seja seu perfil.
"A transição para longe dos combustíveis fósseis é urgente, necessária e complexa, mas não é um bicho de sete cabeças e o mapa mostra vários caminhos para chegar até ela", afirma.
Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, pondera que o sucesso do mapa do caminho será medido pela redução da dependência dos combustíveis fósseis que for posta em prática. "Lula pode dar o próximo passo e apresentar na COP31 o roteiro brasileiro, com metas e prazos concretos. Depois de convocar o mundo a fazer a transição, é hora de mostrar como o Brasil pretende fazê-la", acrescenta a especialista.
A COP31, edição deste ano da conferência climática da ONU, acontece na Turquia a partir da próxima segunda-feira (9). Ainda não se sabe se os planos lançados pelo Brasil serão incorporados de alguma forma nas negociações diplomáticas.
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