
18/06/2026
Se a Jordânia pudesse ser definida em uma palavra, uma boa candidata seria resiliência. E não só pelas nove tentativas frustradas de participar da Copa do Mundo, que se encerram em 2026 com a seleção disputando pela primeira vez a competição. Mas pelos desafios diários relacionados à água.
O país é considerado um dos mais áridos do mundo, sendo o segundo em escassez de água de acordo com algumas classificações.
De acordo com o Unicef, cada pessoa na Jordânia tem acesso a apenas 61 metros cúbicos de água por ano – cerca de 12% dos 500 metros cúbicos mínimos estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), uma situação se escassez absoluta.
Para tentar amenizar o problema, o país conta com um grande projeto de dessalinização, que deve ser finalizado até 2030, e suprir cerca de 40% da necessidade de abastecimento. A megaestrutura coleta água do Mar Vermelho, dessaliniza e bombeia a água tratada até a capital Amã.
Mas, até a obra ser concluída, a população enfrenta diariamente o desabastecimento e o racionamento constante.
Luis Antonio Bittar, professor titular do Departamento de Geografia da USP e especialista em recursos naturais, explica que as principais causas da escassez de água na Jordânia são climáticas e geográficas:
Climáticas
Mais de 90% da chuva que cai no país evapora antes de infiltrar e recarregar os aquíferos. Além disso, as mudanças climáticas agravam a situação.
"O aumento das temperaturas leva a uma taxa de evaporação ainda maior. Não só da chuva, mas dos próprios reservatórios superficiais", comenta o professor.
Geográficas
Cerca de 80% do território é composto por terras áridas, desérticas, o que faz com que a taxa de evaporação no país seja altíssima.
Outro ponto ressaltado por Bittar, que também é autor do livro "Água no Oriente Médio: o fluxo da paz", é que as disputas geopolíticas agravam a situação de escassez de água no país.
➡️A Jordânia é vizinha de países como Síria, Israel e Líbano, nações alvos de guerras constantes.
"Ela [a Jordânia] compartilha, por exemplo, o rio Jordão e o rio Yarmouk com a Síria e Israel, respectivamente, e há um controle militar e político dessas fontes que acaba limitando drasticamente o acesso do país a essas águas", detalha.
Além disso, a chegada de refugiados vindos desses países é um outro fator que também pressiona ainda mais o abastecimento de água já comprometido da Jordânia.
A nação tem acolhido muitos imigrantes nas últimas décadas, principalmente da Palestina ocupada, do Iraque e, mais recentemente, da Síria.
"O crescimento demográfico acaba sobrecarregando muito a infraestrutura hídrica do país, muito rapidamente, o que reduziu ainda mais a disponibilidade de água por habitante", afirma Bittar.
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